Duas histórias de meninos – Luís Pimentel

 

  

Boniteza

 

A menina ficou olhando a mãe, enquanto ela espremia laranja, cortava o mamão, colocava a fatia de pão na torradeira e despejava pó de café no coador.

A mãe andava de um lado para o outro, entre a copa e a cozinha, a mesa e o fogão. A menina acompanhava com os olhos cada passo da mãe. A mãe percebeu e perguntou por que você me olha tanto, minha filha? Está me achando bonita?

A menina respondeu que sim e quis saber:

– Será que um dia vou ser tão bonita quanto você?

– Você já é bonita, meu amor. Você é linda – disse a mãe, dando um beijo na testa da menina e levantando com os dedos os fios de sua franja.

A menina bebeu suco, comeu mamão, tomou café com pão, colocou a mochila da escola nas costas e, antes de sair, parou diante da porta:

– Sou bonita mesmo?

– A mais bonita que eu conheço.

– Que bom. Vou dizer isto ao Serginho, um menino bobo que está me esnobando.

  

Alecrim

 O menino seguia com o cachorro, conduzindo-o por uma coleirinha improvisada de corda, e o homem que estava parado na esquina quis saber:

De quem é esse cachorro?

– É meu – respondeu o menino.

– Como é o nome dele?

– Alecrim.

– Isso não é nome de cachorro.

– Não?

– Não. Nome de cachorro é Rex, Guerreiro, Tupy… Alecrim é nome de tempero.

– Lá é casa é nome de cachorro…

– Está bem. Que idade tem ele?

– É novo. Tem a minha idade.

– Sei. Você empresta para eu dar umas voltas?

– Não.

– Eu sempre  quis passear com um cachorro. Eu te empresto a minha bicicleta.

– De jeito nenhum.

– Tem medo de eu não devolver? Se eu sumir com ele, você fica com a bicicleta. É bem mais nova do que o Alecrim.

– Pode até ser. Mas ela não lambe o meu pé.

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Um poema de Florisvaldo Mattos

 

“Liberdade é meu ser

e tempo. É o meu nome.

Razão – o meu sobrenome.”

         

 (Florisvaldo Mattos)

 

Florisvaldo Mattos nasceu  e vive na Bahia. Formado em direito, cedo ele optou pelo jornalismo, atividade que exerce até o presente. Por muitos anos dirigiu o caderno Cultural do Jornal A Tarde. Nos anos 60, integrou em Salvador o grupo da chamada Geração Mapa, liderado pelo cineasta Glauber Rocha. Entre suas obras publicadas, estão Reverdor (1965); Fábula Civil (1975); A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996); e Mares Acontecidos (2000). Galope Amarelo e outros poemas (2001) e Travessia de Oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes  Costa (2004).

 

Oiticica – Um Breve Depoimento

 

Festival de Inverno da Universidade católica do Recife, julho de 1979.

 Entre os convidados, Hélio Oiticica para realizar experiências com “parangolé” e fazer uma rápida retrospectiva de sua obra através de slides. Eu estava no festival realizando uma pequena exposição que… tinha um pé na arte conceitual e outro na arte construtiva, com o título “Manias de Narciso”, que muito impressionou o Oiticica. Conversamos muito sobre arte, a partir daí.

No seu trabalho com “parangolé”, queria um público da periferia, marginal, livre de influências culturais acadêmicas, já que via na marginalidade uma idéia de liberdade. Sem dúvida, era um inventor que mantinha certo domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Sabia o que queria e não queria fazer qualquer coisa. Uma noite circulamos pela periferia da cidade do Recife, na busca de uma escola de samba, Oiticica, Paulo Bruscky, Jomard Muniz de Brito e Almandrade. Uma aventura, papos e papos pela madrugada a dentro, de bar em bar nos arredores da cidade. A vida e a arte, os agitados anos de 1960, a mangueira, a tropicália, Londres, Nova York etc. A arte era, para ele, uma experiência quase cotidiana contra toda e qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética e política. Na projeção de slides na Universidade Católica, as ilustrações dos papos da madrugada anterior, as imagens de uma obra que a arte jamais se livrará. Arte concreta, neo-concreta, penetráveis, ambientes coloridos, bólides, arte ambiental, tropicália etc.

No princípio era Mondrian, Malevith, depois Duchamp. Uma trajetória exemplar na arte brasileira. Uma tensão entre fazer arte e habitar o mundo. Foi assim, uma das últimas performances do Hélio. Quase oito meses depois, misturado com suas obras na solidão de um apartamento/ninho/penetrável, agonizou por três dias vítima de um derrame cerebral. Ficou a lembrança de uma brilhante e discreta presença num festival de inverno em pleno calor do nordeste brasileiro.

 

Almandrade (artista plástico, poeta e arquiteto)

Publicado no Suplemento Literário, Belo Horizonte, novembro de 1997

Observação: Colaboração enviada pelo fotógrafo George Lima. Muito obrigada, George!